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Antônio Coelho: O homem que desafiou às águas

ronaldoprado12
13 de set.
19 min de leitura

"Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" (resume a Lei da Conservação da Massa, popularmente associada ao químico francês Antoine Lavoisier), esta expressão sintetiza a história desta pessoa na sua carreira na Embasa. Entre tantos na história da empresa que se dedicaram sobre o tema tratamento de água, uma deles é Antônio de Freitas Coelho, 44 anos, biólogo, na Embasa há 16 anos, dos quais 14 foram dedicados diretamente ao tratamento de água. Sua trajetória sempre esteve muito ligada às ETAs e à formação das pessoas que fazem o tratamento acontecer no dia a dia.

Seu interesse pela capacitação de operadores começou primeiro como aluno. Entre 2010 e 2011 quando participou de formações na área e teve a oportunidade de aprender com profissionais como Noelson, Luiz Carlos, Joelson e Aridson, da UNF, Valdir Batista Cruz, profissional terceirizado da Embasa que atuou com tratamento de água na UNI e lhe ensinou muito do que sabe nessa área, tais pessoas que tiveram grande influência na sua formação profissional e na forma como passou a enxergar o tratamento de água e a capacitação dos operadores. Criador do Desafio das Águas, do BioSan, do Curso de Operação de Etas em Cards, fabricante de vinhos e amante das ciências, Antonio Coelho gosta e cita Paulo Freire, se vale de frases como: "Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção." (In Pedagogia do Oprimido, 1996). O BoletimChãoDeFábrica teve a honra de bater um papo com esta figura excepcional.


BCF - O que é o Desafio das Águas?

Antônio Coelho ensinando como se deve fazer um tratamento cada vez mais otimizado.
Antônio Coelho ensinando como se deve fazer um tratamento cada vez mais otimizado.

Antônio Coelho - O Desafio das Águas é uma metodologia de capacitação profissional voltada principalmente para trabalhadores que atuam na operação de Estações de Tratamento de Água (ETAs) e, em sua evolução mais recente, também de Estações de Tratamento de Esgotos (ETEs).

A proposta parte de uma ideia simples: aprender tratamento de água tratando água de verdade.

Em vez de receber apenas conteúdos teóricos e respostas prontas, os participantes são colocados diante de problemas semelhantes aos encontrados no cotidiano operacional. Organizados em equipes, recebem aproximadamente 50 litros de diferentes tipos de água e precisam caracterizar essa água, identificar os problemas, realizar ensaios de tratabilidade, calcular dosagens, escolher produtos e processos e, finalmente, produzir uma água tratada que atenda aos padrões de qualidade estabelecidos.

O desafio não é simplesmente tratar a água. É tratá-la como uma empresa de saneamento precisa fazer: buscando qualidade, segurança, menor dosagem possível de produtos químicos, menor custo, redução de perdas e maior eficiência operacional. A metodologia é fundamentada na Aprendizagem Experiencial, na Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL) e nos princípios da educação de adultos.

Além dessas bases, o pensamento de Paulo Freire constitui uma importante inspiração pedagógica para o Desafio das Águas. Essa aproximação aparece principalmente na valorização da experiência do trabalhador, no diálogo entre diferentes formas de conhecimento, na problematização da realidade e na compreensão de que o participante não é um recipiente vazio no qual o instrutor deposita conhecimento.

No Desafio das Águas, o operador não recebe simplesmente uma resposta pronta. Ele observa, questiona, experimenta, discute, erra, corrige, compartilha sua experiência e constrói a solução com o grupo. Por isso, uma frase resume bem a filosofia da metodologia:

Aqui, o operador não recebe a resposta. Ele constrói a solução.


BCF - Onde e como nasceu este projeto?


Antônio Coelho - O Desafio das Águas nasceu na Unidade Regional de Irecê (UNI), da Embasa, como resultado da evolução de um trabalho de capacitação de operadores que vem sendo aperfeiçoado desde 2010 e que ganhou uma nova dimensão em 2025 e 2026. A experiência acumulada mostrou que somente transmitir conteúdos técnicos não era suficiente. Era necessário aproximar cada vez mais a formação da realidade vivenciada pelo trabalhador. Dessa necessidade surgiu o Desafio das Águas: transformar problemas operacionais em problemas de aprendizagem.

É justamente nesse aspecto que existe uma forte aproximação com Paulo Freire. O trabalhador que chega ao treinamento não chega sem conhecimento. Um operador que trabalha há cinco, dez, vinte ou trinta anos em uma ETA acumulou observações, práticas, soluções, erros e aprendizados que precisam ser reconhecidos. O conhecimento técnico e científico do instrutor não deve apagar esse saber construído na experiência. Os dois precisam dialogar.

Assim, quando um operador explica como percebe a formação de um floco, identifica uma alteração na água bruta ou relata como resolveu determinado problema operacional, essa experiência passa a integrar a discussão. O conhecimento científico ajuda a explicar o fenômeno, enquanto a experiência operacional ajuda a contextualizá-lo. Essa troca já aparece como um dos resultados da metodologia: profissionais com diferentes níveis de experiência compartilham estratégias, discutem alternativas e constroem soluções coletivamente, fortalecendo a gestão do conhecimento da própria empresa.

Portanto, o Desafio das Águas não pretende substituir o conhecimento empírico pelo conhecimento científico. Busca aproximar os dois.


BCF - Já passou por quantas unidades e já treinou quantos operadores?

O desafio das águas: quatro tipos de águas para serem tratadas.
O desafio das águas: quatro tipos de águas para serem tratadas.

Antônio Coelho - O projeto já alcançou profissionais provenientes de quatro Unidades Regionais da Embasa — Irecê (UNI), Senhor do Bonfim (UNS), Feira de Santana (UNF) e Barreiras (UNB) — além de participantes da Águas de Xique-Xique.

Em 2026, as duas turmas que utilizaram a metodologia Desafio das Águas reuniram 67 colaboradores. Considerando o processo de capacitação realizado em 2025 e 2026, foram capacitados 60 operadores da UNI, correspondendo a aproximadamente 90,9% do quadro operacional da unidade.

Além dos operadores, as turmas já receberam profissionais com outras funções, incluindo gerentes, agentes operacionais e jovem aprendiz.


BCF - Como é feito o curso? Qual a carga horária? É presencial ou on-line?


Antônio Coelho - O Desafio das Águas é essencialmente presencial, porque sua principal característica é unir teoria, laboratório e prática operacional. Na configuração ampliada, o treinamento possui 32 horas, combinando atividades teóricas e laboratoriais com 8 horas de prática em ETA e 4 horas de prática em ETE. A inclusão da ETE será a partir da próxima turma. Durante o curso, os participantes realizam análises, Jar Test, cálculos de dosagem, coagulação, floculação, decantação, filtração, desinfecção, fluoretação, controle de pH, avaliação microbiológica, construção e operação de filtros em pequena escala, avaliação de custos e tratamento do lodo.

A lógica é:

ANALISAR → TESTAR → CALCULAR → DECIDIR → TRATAR → FILTRAR → AVALIAR → OTIMIZAR.


BCF - Qual é o foco de aprendizado?


Antônio Coelho - O foco principal não é simplesmente transmitir conteúdo. É desenvolver a capacidade de compreender problemas e tomar decisões. Essa característica aproxima novamente o Desafio das Águas da concepção problematizadora da educação associada a Paulo Freire. O problema apresentado não é artificialmente separado da realidade do trabalhador. Ele procura reproduzir situações que o operador pode encontrar no seu cotidiano. O instrutor deixa de ocupar exclusivamente a posição de quem possui todas as respostas e passa também a atuar como mediador do processo de aprendizagem.

O participante precisa perguntar:

Que água é essa?

Qual é o problema?

Que tratamento devo utilizar?

Quanto produto químico devo aplicar?

Existe uma solução mais eficiente?

Quanto custa minha decisão?

Quanto de água estou perdendo?

Minha solução é ambientalmente sustentável?

A água final está realmente segura?


Inicialmente foram trabalhadas águas com predominância de cor, turbidez e combinação de cor e turbidez. Posteriormente foi incorporada a água salobra, permitindo discutir dessalinização, eficiência energética, custos e segurança hídrica no contexto do Semiárido.

A evolução da metodologia incorpora ainda efluentes de ETE, reúso, tratamento de resíduos e novas tecnologias.


BCF - Além de operadores, qualquer outro trabalhador da Embasa pode fazer?

No campo, pois o curso mescla teoria e prática.
No campo, pois o curso mescla teoria e prática.

Antônio Coelho - Sim. Embora tenha nascido fortemente direcionado aos operadores, o Desafio das Águas possui potencial para envolver trabalhadores de diferentes áreas da Embasa.

Isso já começou a acontecer. As turmas contaram não apenas com operadores, mas também com profissionais de outras funções.

Essa diversidade é positiva porque coloca pessoas com diferentes experiências diante do mesmo problema. Operação, laboratório, manutenção, engenharia, segurança, meio ambiente e gestão podem enxergar aspectos diferentes de uma mesma situação.

Novamente aparece um princípio importante da metodologia: todos têm algo a ensinar e todos têm algo a aprender.


BCF - Qual a relação da extensão para operadores de ETEs com a preservação ambiental?


Antônio Coelho - A inclusão das ETEs amplia significativamente o alcance ambiental do projeto. Ao trabalhar com esgoto tratado, o participante passa a discutir não somente como remover contaminantes, mas também qual é o destino dessa água, quais possibilidades existem para reúso, como reduzir impactos ambientais e como transformar resíduos em recursos.

Na configuração ampliada do Desafio das Águas, os participantes são desafiados a tratar efluente de ETE, avaliar possibilidades de reúso e discutir sustentabilidade, integrando ETA + ETE dentro do ciclo do saneamento.

Preservar o meio ambiente deixa, assim, de ser somente um conceito apresentado em sala e passa a fazer parte das decisões tomadas pelo participante.


BCF - O curso também se relaciona com segurança do trabalho? Como?


Antônio Coelho - Sim. Segurança do trabalho e boa operação estão diretamente relacionadas.

O trabalhador de ETA ou ETE lida com produtos químicos, equipamentos, instalações hidráulicas, eletricidade, laboratórios e diferentes condições operacionais. Ensinar uma atividade corretamente também significa ensinar a executá-la com segurança.

Existe ainda uma relação mais ampla: conhecimento técnico também funciona como uma barreira de segurança.

Quem compreende o processo consegue reconhecer situações anormais mais rapidamente, avaliar riscos, evitar improvisações e tomar decisões mais seguras.


BCF - O que precisamos para este curso se expandir ainda mais?


Antônio Coelho - Das maiores vantagens do Desafio das Águas é sua replicabilidade.

A metodologia utiliza predominantemente recursos já existentes na empresa: laboratórios, equipamentos para ensaios de tratabilidade, unidades operacionais, produtos químicos e, principalmente, profissionais com experiência e conhecimento. Isso reduz custos e facilita sua implantação em outras unidades.

Para expandir, precisamos principalmente de apoio institucional, multiplicadores, integração entre as Unidades Regionais e valorização dos profissionais que já possuem conhecimento dentro da empresa.

Cada região pode ainda adaptar o desafio à sua realidade: água salobra, elevada turbidez, cor, cianobactérias, escassez hídrica, tratamento de efluentes ou outros problemas locais.


BCF - Este curso ajuda a construir a Embasa do futuro? Como?


Antônio Coelho - Sim. E talvez essa seja uma das maiores contribuições do Desafio das Águas. A Embasa do futuro terá mais automação, sensores, inteligência artificial, sistemas de controle e novas tecnologias. Mas continuará dependendo de pessoas capazes de interpretar informações, compreender processos, questionar e tomar decisões.

O Desafio das Águas procura desenvolver justamente essas competências.

Também contribui para preservar algo extremamente valioso: o conhecimento acumulado pelas pessoas ao longo de anos de trabalho.

Quando um operador experiente compartilha aquilo que aprendeu durante décadas e esse conhecimento encontra o saber de um profissional recém-chegado, do laboratório, da engenharia ou de outra unidade, ocorre gestão do conhecimento na prática.

Nesse sentido, o Desafio das Águas também carrega uma inspiração profundamente freireana: reconhecer o trabalhador como sujeito do conhecimento e não apenas como receptor de treinamento.

O futuro do saneamento exigirá eficiência, redução de perdas, otimização de produtos químicos, segurança hídrica, reúso, economia circular, sustentabilidade, inovação e capacidade de adaptação.

Tecnologias mudarão. Equipamentos mudarão. Novos desafios aparecerão. Por isso, preparar a Embasa do futuro não significa apenas comprar novas tecnologias.

Significa também preparar pessoas para compreender a realidade e transformá-la. Essa talvez seja a melhor síntese do Desafio das Águas:

Problemas reais. Saberes compartilhados. Ciência e experiência trabalhando juntas. Pessoas construindo soluções para transformar o saneamento.


BCF - Vamos falar de outro assunto, deste projeto criado por você e intitulado Biosan, de maneira direta, o que é o BioSan?

Ministrando aulas no BioSan na UNI
Ministrando aulas no BioSan na UNI

Antônio Coelho - O BioSan – Biologia Aplicada ao Saneamento é um programa permanente de capacitação técnico-científica e educação continuada, criado na Unidade Regional de Irecê da Embasa para aproximar o conhecimento científico da realidade de quem trabalha com saneamento. Ele integra biologia, microbiologia, saúde pública, meio ambiente e engenharia sanitária com situações reais dos sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário. A proposta é fazer com que conhecimentos que muitas vezes aparecem de maneira fragmentada sejam compreendidos a partir daquilo que o trabalhador vivencia no dia a dia.

Por isso, o BioSan acabou se tornando também uma ferramenta de gestão do conhecimento e aprendizagem organizacional: quem participa não é apenas receptor do conhecimento; traz sua experiência, discute problemas, compartilha saberes e pode se tornar multiplicador desse conhecimento dentro da própria empresa. Em 2026, inclusive, participantes de 2025 passaram a atuar como instrutores.

BCF - Como funciona a construção e aplicabilidade do BioSan?


Antônio Coelho - O BioSan combina teoria e prática ao longo do ano, em vez de concentrar a aprendizagem em um treinamento isolado de poucos dias. As aulas trabalham os fundamentos científicos e depois procuram relacioná-los às situações concretas do saneamento. Há aulas teóricas, atividades práticas, experimentação, microscopia, laboratório, visitas técnicas e atividades realizadas nas próprias ETA, ETE, captação e outros ambientes operacionais. A aprendizagem também continua fora da sala: são utilizados materiais didáticos próprios, apresentações, exercícios pelo Google Forms e um grupo de WhatsApp para troca de conteúdos, dúvidas e experiências. Em 2025, foram 37 encontros, sendo 31 teóricos e 6 práticos, totalizando 50 horas. Em 2026, o BioSan passou a integrar o calendário anual de capacitações da Unidade Regional, com programação de 29 aulas teóricas e 6 práticas, totalizando 44 horas.

Um aspecto importante é que o conhecimento não circula apenas de um professor para um aluno. A própria experiência profissional dos trabalhadores entra no processo educativo. Quem sabe alguma coisa ensina; quem vive determinado problema operacional traz essa experiência para discussão; ciência e conhecimento adquirido na prática passam a dialogar.


BCF - A quem se aplica?

Mais BioSan
Mais BioSan

Antônio Coelho - Embora tenha nascido como Biologia Aplicada ao Saneamento, o BioSan não é um curso destinado apenas a biólogos nem exclusivamente a operadores de ETA. Ele se aplica aos trabalhadores envolvidos direta ou indiretamente com o saneamento, especialmente aqueles ligados ao abastecimento de água, tratamento de esgoto, qualidade da água, meio ambiente, laboratório, operação, manutenção e gestão.

Na prática, essa característica interdisciplinar já promoveu a integração entre operadores, técnicos, engenheiros, biólogos, químicos e gestores. Portanto, eu resumiria a ideia central assim:

O BioSan transforma a empresa em um espaço permanente de aprendizagem. A ciência ajuda a compreender a prática, e a experiência de quem vive o saneamento todos os dias também se transforma em conhecimento que pode ser compartilhado.


BCF - Agora vamos falar do Curso de operação de Etas por Cards, o que é este curso, a qual público de aplica? Seus objetivos com ele é o mesmo que tem com o Desafio das Águas?


Antônio Coelho - Sim. O Curso de Operação de ETAs em Cards não é um projeto isolado, mas uma terceira forma de trabalhar a mesma ideia que aparece no Desafio das Águas e no BioSan: democratizar conhecimento técnico, valorizar quem está na operação e transformar ciência em ferramenta de trabalho. O Curso Operação de ETAs em Cards nasceu de uma pergunta muito simples: como fazer o conhecimento técnico sobre tratamento de água chegar de maneira rápida, clara e útil a quem está lá na ponta, operando uma ETA?

Ao longo dos anos percebi que temos excelentes livros e materiais técnicos sobre tratamento de água, mas muitos são extensos, acadêmicos e nem sempre foram pensados para a rotina do operador. Então procurei fazer algo diferente: transformar conceitos técnicos e científicos em cards visuais, objetivos e autoexplicativos, que possam ser lidos principalmente pelo celular.

O Volume 1 reúne mais de 40 cards e foi estruturado para apresentar conceitos essenciais, cálculos, dicas práticas e informações técnicas de forma visual e direta. O próprio material foi pensado para facilitar a consulta no cotidiano operacional e para atender principalmente operadores, técnicos, estudantes e outros profissionais interessados em tratamento de água.

O objetivo tem muita relação com o Desafio das Águas e com o BioSan, mas as metodologias são diferentes. Eu costumo enxergar os três projetos como caminhos diferentes para um mesmo propósito. No Desafio das Águas, a pessoa aprende fazendo: recebe um problema, experimenta, calcula, erra, corrige e constrói uma solução.

No BioSan, nós trabalhamos a formação continuada, aproximando biologia, microbiologia, saúde pública, meio ambiente e engenharia sanitária da realidade do saneamento.

E, no Curso em Cards, a ideia é colocar parte desse conhecimento na palma da mão. É permitir que alguém esteja na ETA, em casa, no ônibus ou no intervalo do trabalho, pegue o celular e aprenda alguma coisa em poucos minutos. No fundo, os três partem da mesma convicção: conhecimento técnico só alcança todo o seu valor quando consegue chegar às pessoas e ajudá-las a compreender e transformar a realidade.


BCF - É gratuito? Qual o tempo de leitura necessário?


Antônio Coelho - Sim. A versão digital foi concebida para ser gratuita. Isso é uma decisão importante dentro da proposta do projeto, porque uma das minhas preocupações é justamente ampliar o acesso ao conhecimento.

O Volume 1 possui mais de 40 cards distribuídos em 102 páginas e foi desenvolvido em PDF, com adaptação especialmente pensada para leitura na tela do celular. E não existe necessariamente um tempo obrigatório de leitura. Na verdade, eu nem gostaria que ele fosse encarado como um livro que você precisa começar na primeira página e terminar rapidamente na última. A lógica do card permite outra relação com o conteúdo. Você pode estudar durante uma hora, mas também pode abrir o material e estudar um único assunto durante cinco ou dez minutos. Pode consultar uma informação durante o trabalho, rever um cálculo ou voltar a determinado card quando surgir uma dúvida. Essa talvez seja uma das maiores vantagens do formato: cada pessoa pode aprender no seu próprio ritmo. Eu quero que o livro seja estudado, mas também quero que ele seja consultado. Quero que fique no celular do operador e que ele possa pensar: "Eu vi isso naquele card", abrir o material e encontrar rapidamente a informação.


BCF - Como acessar este curso?

Card de chamada do curso de etas em cards
Card de chamada do curso de etas em cards

Antônio Coelho - O curso foi pensado justamente para facilitar o acesso. Ele é disponibilizado digitalmente em PDF e pode ser acessado pelo celular, tablet ou computador no endereço do LinkedIn: https://lnkd.in/dfR9s_Yg.

A própria publicação também utiliza QR Codes como pontes para outros conteúdos. Em alguns assuntos, o leitor pode sair do card e continuar aprendendo por meio dos episódios do podcast ETA – Entender, Tratar e Aprender e de outros conteúdos profissionais. O livro, portanto, não precisa terminar na página: ele pode levar o leitor para outras formas de aprendizagem.

Isso é algo de que gosto muito no projeto. Uma pessoa pode começar lendo um card, aprofundar o assunto ouvindo um podcast e depois relacionar aquilo com um problema que está vivendo na ETA. A ideia é criar diferentes portas de entrada para o conhecimento.


BCF - Você esteve no ChãoDeFábricaPodcast e bateu um papo com um operador e duas operadoras, além de responder a perguntas de operadores e de outros trabalhadores pelo chat ao vivo. Como foi esta experiência?


Antônio Coelho - Foi uma experiência muito especial porque representou, na prática, muitas das coisas em que acredito sobre capacitação.

Não era simplesmente alguém falando sobre tratamento de água para operadores. Havia trabalhadores falando sobre aquilo que vivem todos os dias. Quando colocamos na mesma conversa conhecimento técnico, experiência operacional, dificuldades reais, perguntas de quem está trabalhando e diferentes histórias profissionais, acontece algo muito rico: o conhecimento deixa de ter uma única direção.

Eu aprendi muito naquela conversa também.

E isso tem tudo a ver com o que procuro desenvolver no Desafio das Águas, no BioSan e no Curso em Cards. O operador não é apenas alguém que recebe informação. Ele observa a água todos os dias, percebe mudanças, enfrenta problemas, testa soluções e acumula conhecimento. Dar voz a essas pessoas também é uma forma de fazer gestão do conhecimento. Registramos experiências, dificuldades, soluções e aprendizados que normalmente ficariam restritos a determinada ETA ou a determinado profissional. Essa capacidade do Chão de Fábrica de aproximar experiência prática e conhecimento técnico foi justamente um dos aspectos destacados no material produzido sobre o programa.

Por isso gostei tanto da experiência. Foi uma conversa sobre tratamento de água, mas, acima de tudo, foi uma conversa sobre pessoas que fazem o saneamento acontecer.


BCF - No ChãoDeFábricaPodcast (link: www.youtube.com/@chaodefabricadosaneamento ) duas horas foram pouco para a conversa. O que faltou falar lá que você possa dizer aqui?

No ChãoDeFábricaPodcast com os operadores  Pollyana Giffoni (lado), Ronaldo Prado e Keila Simeia (a frente)
No ChãoDeFábricaPodcast com os operadores Pollyana Giffoni (lado), Ronaldo Prado e Keila Simeia (a frente)

Antônio Coelho - Acho que duas horas foram pouco justamente porque tratamento de água não é apenas coagulação, floculação, decantação, filtração e desinfecção. Por trás de cada processo existem pessoas, decisões, experiências, erros, acertos e muito conhecimento acumulado.Talvez tenha faltado aprofundar justamente essa discussão sobre o futuro da operação. Estamos entrando em uma época de automação crescente, sensores, inteligência artificial, análise de dados e sistemas cada vez mais sofisticados. Eu considero tudo isso extremamente importante. Tecnologia deve ser utilizada para ampliar nossa capacidade de trabalhar melhor.

Mas existe uma coisa que não podemos esquecer: uma ETA tecnologicamente avançada continua precisando de pessoas que compreendam o processo.

Automação não substitui conhecimento. Ela potencializa quem sabe utilizá-la.

Por isso, acredito muito na formação do operador capaz de pensar o processo, interpretar os dados, perceber quando alguma coisa não está normal, questionar uma resposta automática e buscar soluções.

Também gostaria de ter falado mais sobre multiplicação do conhecimento. Temos dentro da própria empresa trabalhadores com dez, vinte, trinta anos de experiência. Esse patrimônio intelectual precisa circular.

Quando um trabalhador ensina aquilo que sabe para outro, o conhecimento deixa de pertencer somente a uma pessoa e passa a pertencer à organização. É aí que projetos aparentemente diferentes como Desafio das Águas, BioSan, Curso em Cards e até o podcast se encontram.

Todos procuram, de alguma maneira, fazer a mesma coisa:

transformar conhecimento individual em conhecimento compartilhado.

E existe uma frase que resume muito do que tenho aprendido nesse processo: quando a gente compartilha e ensina, a gente aprende também.


BCF - E sua experiência com a produção de vinho? Onde nasceu essa paixão?

Rótulo do VinhoSan
Rótulo do VinhoSan

Antônio Coelho - Na verdade, eu não trabalho com viticultura. Minha experiência é com a produção artesanal de vinho, e essa história começou de uma maneira muito particular.

Certa vez recebi de presente uma garrafa de uma bebida bastante sofisticada. Achei o presente muito interessante, mas aquilo me provocou uma reflexão: qual seria o melhor presente que alguém poderia dar a outra pessoa?

E cheguei a uma resposta que ficou comigo: talvez seja algo que a própria pessoa tenha produzido.

Porque, quando você produz alguma coisa e oferece a alguém, não está entregando simplesmente um objeto ou uma bebida. Está entregando seu tempo, seu trabalho, suas tentativas, seus erros, seu aprendizado e um pouco da sua própria história. Cada produção se torna única. Pensei: imagine se aquela pessoa tivesse produzido aquela bebida e depois me presenteado com ela? Para mim, aquilo teria um significado ainda maior.

Foi daí que surgiu o desafio: eu também queria aprender a produzir bebidas para poder presentear as pessoas de quem gosto com algo feito por mim. E o vinho acabou me conquistando. Talvez porque ele reúna muitas coisas pelas quais sou apaixonado: biologia, química, microbiologia, natureza, experimentação e, principalmente, transformação. Você começa com uma matéria-prima e acompanha processos biológicos e químicos até chegar a algo completamente diferente. Mas existe também uma dimensão afetiva muito forte nessa história. Eu gostaria muito de ter produzido uma garrafa de vinho para abrir e beber com meu pai. Infelizmente, isso não é mais possível. Ele faleceu há mais de vinte anos e, naquela época, eu ainda não sabia produzir vinho. Isso acabou me ensinando outra coisa sobre o tempo. Hoje, quando ensino alguém a produzir vinho, não estou interessado apenas em ensinar fermentação ou uma técnica de produção. Gosto de transmitir uma ideia: aprenda enquanto ainda há tempo de produzir uma garrafa, colocar sobre a mesa, abrir e compartilhar com as pessoas que você ama.

Porque talvez o verdadeiro valor daquela garrafa não esteja no vinho. Esteja na pessoa que estará do outro lado da mesa.

Minha produção também acabou quebrando alguns paradigmas. Utilizo uma variedade de uva de mesa que normalmente não é empregada na produção tradicional de vinhos. Além disso, desenvolvi e aperfeiçoei uma técnica de produção relativamente rápida, de modo que, em menos de 30 dias, consigo ter um vinho pronto para consumo. Foi um processo de muito estudo, experimentação, erros e ajustes até conseguir chegar ao padrão que buscava. E tenho muito orgulho da qualidade e da regularidade que consegui alcançar.

Talvez seja justamente isso que mais me fascine: transformar. Transformar uva em vinho. Transformar experiência em conhecimento. Transformar conhecimento em algo que pode ser compartilhado. Ainda existe um desafio que quero realizar: plantar minhas próprias videiras, colher minhas próprias uvas e produzir um vinho desde a origem, acompanhando todo o ciclo. Ainda estou nessa busca. No dia em que conseguir plantar a videira, colher a uva, produzir o vinho e abrir essa garrafa ao lado de pessoas que amo, acredito que o ciclo estará completo.


BCF - Como fazemos para comprar esta iguaria? Pelas redes sociais?


Antônio Coelho - Meu objetivo principal nunca foi comercializar vinho. Eu produzo porque gosto do processo, da ciência envolvida, do desafio de aperfeiçoar a técnica e, principalmente, do significado de compartilhar aquilo que produzi. Para mim, uma garrafa feita por alguém e oferecida a outra pessoa tem um valor que não pode ser medido apenas pelo preço. Por isso, gosto muito mais da ideia de produzir para compartilhar do que simplesmente produzir para vender. Mas, eventualmente, se alguém tiver interesse, posso produzir por encomenda, dentro das possibilidades da minha produção artesanal. Nesse caso, a melhor forma de entrar em contato comigo é pelas minhas redes sociais (Instagram: antoniofcoelho).

E faço questão de dizer uma coisa: mais do que alguém comprar meu vinho, eu ficaria muito feliz se essa história despertasse nas pessoas a vontade de aprender a produzir o seu próprio.

Produza uma garrafa. Coloque uma etiqueta com seu nome. Presenteie seu pai, sua mãe, sua esposa, seu marido, seus filhos, um irmão ou um grande amigo. E não espere uma ocasião perfeita.

Produza enquanto há tempo.

Presenteie enquanto há tempo.

Abra a garrafa enquanto há tempo.


BCF - Considerações finais, perspectivas para o futuro e agradecimentos.


Antônio Coelho - Depois de conversar sobre Desafio das Águas, BioSan, Curso Operação de ETAs em Cards, tratamento de água, educação e até produção de vinho, percebo que existe uma palavra capaz de ligar praticamente tudo isso:

transformação. Talvez por isso a referência a Lavoisier no início desta entrevista tenha sido tão apropriada. Na ETA, transformamos água bruta em água potável. No Desafio das Águas, transformamos problemas reais em oportunidades de aprendizagem. No BioSan, procuramos transformar ciência em conhecimento aplicável à realidade do saneamento. No Curso Operação de ETAs em Cards, procuramos transformar assuntos que muitas vezes parecem complexos em conhecimento simples, visual e acessível.

E, quando produzo vinho, acompanho outra transformação extraordinária proporcionada pela natureza, pela biologia, pela química e pela ação humana.

Mas existe uma transformação ainda mais importante para mim: a transformação do conhecimento quando ele é compartilhado.

Eu comecei aprendendo com outras pessoas. Entre 2010 e 2011, quando participei das primeiras capacitações que marcaram minha trajetória no tratamento de água, profissionais como Noelson, Valdir, Luiz Carlos, Joelson e Aridson compartilharam comigo aquilo que sabiam. Depois vieram muitos outros colegas, operadores e profissionais com quem aprendi ao longo desses 16 anos de Embasa.

Hoje tento fazer o mesmo.

Talvez eu tenha começado como aluno e, em algum momento, tenha me tornado instrutor. Mas nunca deixei de ser aluno. Cada treinamento, cada turma, cada conversa com um operador, cada problema numa ETA e cada experiência nova continuam me ensinando alguma coisa.

É por isso que acredito tanto em multiplicadores.

Quando ensinamos uma pessoa, capacitamos uma pessoa. Quando ensinamos essa pessoa a compartilhar aquilo que sabe, começamos a criar uma cultura. E conhecimento que vira cultura ganha escala.

Quanto ao futuro, quero continuar desenvolvendo o Desafio das Águas, fortalecendo o BioSan e ampliando o Curso Operação de ETAs em Cards. Quero continuar estudando, experimentando e incorporando novas tecnologias, inclusive automação e inteligência artificial, sem perder aquilo que considero fundamental: o protagonismo das pessoas.

Tecnologia é extraordinária. Mas uma ETA moderna, automatizada e cheia de sensores ainda precisa de pessoas capazes de compreender o processo, interpretar informações, reconhecer anormalidades, questionar, decidir e inovar. Por isso, quando penso na Embasa do futuro, não penso apenas em equipamentos melhores. Penso em pessoas cada vez mais preparadas para utilizar, compreender e melhorar esses equipamentos e processos. Também tenho meus desafios pessoais. Quero continuar escrevendo, produzindo materiais, ensinando e aprendendo. E quero um dia plantar minhas próprias videiras, colher minhas próprias uvas e produzir meu vinho desde a origem.

Agradeço à Embasa e à Unidade Regional de Irecê pelas oportunidades ao longo dessa trajetória; aos profissionais que me ensinaram; aos colegas que abraçaram essas ideias; aos instrutores e participantes do BioSan; aos operadores e demais trabalhadores que participaram do Desafio das Águas; e a todos que contribuíram para o Curso Operação de ETAs em Cards.

Agradeço também ao Chão de Fábrica por abrir espaço para que trabalhadores possam falar sobre aquilo que fazem, sabem, aprendem e constroem diariamente.

E agradeço à minha família e às pessoas que caminham comigo, porque, no final das contas, são elas que dão sentido às nossas realizações.

Se pudesse deixar uma última mensagem, talvez ela nem fosse apenas sobre saneamento.


Seria sobre tempo:


Aprenda enquanto há tempo.

Ensine enquanto há tempo.

Compartilhe enquanto há tempo.

Faça aquele projeto enquanto há tempo.

Produza aquela garrafa enquanto há tempo.

E sente-se à mesa com as pessoas que você ama enquanto há tempo.

Hoje eu sei produzir o vinho que gostaria de ter compartilhado com meu pai. Só não tenho mais meu pai aqui para abrir essa garrafa comigo.

Talvez por isso eu tenha aprendido que algumas coisas não devem ser adiadas. No saneamento, no conhecimento, no vinho e na própria vida, gosto da ideia de transformação. Mas as melhores transformações são aquelas que ainda podemos compartilhar com alguém.

 
 
 

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