O bolsonarismo e o risco de uma ditadura de direita no Brasil

Uma colega, nem bolsonarista nem lulista, disse que acreditar que o Brasil se torne uma ditadura de direita após uma vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2026 é tão ridículo quanto acreditar que o país possa se tornar uma “Venezuela”. Talvez, para compreender essa questão, seja suficiente entender de Matemática.
Os bolsonaristas conquistaram grande parte da Câmara dos Deputados e do Senado. Com a Presidência, terão poder para indicar ministros ao Supremo Tribunal Federal (STF), além de contar com uma base parlamentar disposta a avançar contra ministros que consideram adversários. Somem-se a isso o poder econômico, setores da grande mídia e o apoio dos Estados Unidos. A História demonstra que os norte-americanos já apoiaram ditaduras militares na América Latina.
Já sabemos o que um governo bolsonarista é capaz de fazer para enfraquecer instituições. Em seu mandato (2019-2022), Jair Bolsonaro declarou que demitiria quem atrapalhasse sua família. Também atacou instituições responsáveis por divulgar informações que contrariavam seus interesses, a exemplo da demissão do então presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Ricardo Galvão, após a divulgação de dados sobre o desmatamento. Atacar a produção de informações confiáveis é atacar a própria democracia, pois impede que a sociedade conheça a realidade. A disseminação de notícias falsas, modus operandi dos grupos bolsonaristas, completa essa estratégia de alienação e manipulação.
Bolsonaro também tratou antigos aliados que discordavam dele como inimigos, classificando-os indiscriminadamente como “comunistas”. Entre os que romperam com o bolsonarismo estão Joice Hasselmann e o próprio presidente do PSL, partido pelo qual se elegeu, Luciano Bivar. Inclusive circula agora um vídeo na Internet de Joice com denúncias contra Flávio. De acordo com a denunciante, ao perceber do que se tratava o bolsonarismo e se afastar, foi perseguida e fisicamente agredida. A Polícia do Distrito Federal, no entanto, controlada por governador aliado ao Bolsonaro, concluiu que o incidente foi uma queda.
É nesse comportamento que vemos as características de facções e milícias. Não se trata de dizer que um movimento político esteja totalmente envolvido com organizações criminosas, mas de reconhecer uma lógica semelhante: fidelidade incondicional aos chefes, proteção dos aliados, intimidação dos dissidentes e tentativa de controlar instituições para servir a interesses particulares. Como numa facção, quem rompe com o grupo passa a ser tratado como inimigo. A lealdade pessoal se sobrepõe aos princípios, e o poder deixa de servir à sociedade para proteger os próprios integrantes.
Com Flávio Bolsonaro na Presidência, essa estrutura, fortalecida no Congresso e com influência sobre instituições, avançará sobre os mecanismos de controle democrático. A Polícia Federal e setores das polícias estaduais serão alvos de tentativas de instrumentalização política; servidores públicos sofrerão intimidação e ameaças de demissão; direitos dos aposentados e programas sociais serão colocados em risco. O resultado será mais perseguição, menos autonomia institucional e maior concentração de poder.
Para nós, trabalhadores da Embasa, a democracia também significa preservar direitos, exercer nossas funções sem perseguição política e ter liberdade para discordar dos governantes. Defender a democracia é impedir que qualquer grupo político se torne dono do Estado. Afinal, quando a lealdade a um líder vale mais do que a lei, não é apenas a oposição que perde a liberdade: é toda a sociedade.
Não precisamos esperar que uma ditadura esteja instalada para reconhecer seus sinais. Quando um grupo transforma adversários em inimigos e tenta colocar a própria liderança acima das leis, o risco autoritário deixa de ser uma fantasia .
Marcos Fonseca, Jornalista, DRT BA 2602




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